Documento de referência da nossa conversa. Não é um plano de prazos — é o registro de uma jornada de autodescoberta que começou no dia em que você se deu permissão de existir pra si mesma. Aqui está, em palavras, o que vivemos juntos. Volta sempre que precisar lembrar.
Antes de qualquer reflexão, vale registrar aqui o que você me trouxe. Sua história contada por você mesma, sem pressa, sem filtro. Essa é a base de tudo que veio depois na nossa conversa.
Você nasceu em Riacho dos Machados, norte de Minas. Seus pais são produtores rurais até hoje. Aos 5 anos, foi morar com a tia em Montes Claros pra poder estudar — a distância da escola era grande e seu pai não te deixava ir sozinha. Você entendeu a escolha deles. Mas mesmo entendendo, ali não era a sua casa.
Aos 10-11 anos voltou pra Riacho dos Machados quando a prefeitura passou a oferecer transporte escolar. E foi nesse retorno que começou a assumir responsabilidades grandes demais pra idade: cuidar da irmã mais nova, cuidar dos animais, preparar comida, tudo isso enquanto seus pais saíam às 5h da manhã pra trabalhar na zona rural e voltavam só à noite.
Você me contou que era pra ter um irmão mais velho — ele faleceu com um ano e meio. Sua mãe estava grávida de você quando perdeu ele. Você chegou ao mundo carregando uma ausência que veio antes de você.
Aos 15-16 voltou pra Montes Claros pra fazer ensino médio. Em 2003 sua tia faleceu — e com ela se foi seu porto seguro naquela cidade. A relação com a prima ficou difícil. Você decidiu voltar pra Riacho dos Machados, pra casa dos pais, agora na cidade (seu pai tinha comprado uma casa lá).
Você mesma disse: "foi um ano onde eu extrapolei todos os limites — festa, amizade, balada". Conheceu coisa pesada. Olhou pra trás e agradeceu por ter saído de lá inteira. Mas algo já te incomodava: a sensação de que aquele lugar não era pra você. Algo dentro queria mais.
Voltou pra Montes Claros, morou com o tio (pé de guerra com a prima outra vez), começou faculdade de Serviço Social, foi morar numa república com amigas. Trabalhou de camareira num hotel — "jovem com 22, 23 anos limpando apartamento, eu não me sentia feliz com aquilo". Tentou a Bahia (não deu). Foi pra Fronteira morar com outro tio (não deu). Voltou pra Montes Claros mais uma vez.
Em 2011 uma amiga te chamou pra Americana. Você foi, ficou um ano, prestou Enem, ProUni — e veio parar em São Paulo. Fez faculdade de RH. Trabalhou em contabilidade, agência, depois Atento. Conheceu o Thiago. Comprou — junto com seus pais — uma casa em Montes Claros que você até hoje fala que é dos seus pais, não sua. Foi a primeira vez que apareceu o padrão: assinou uma compra de casa que nunca foi um desejo seu.
Em 2015-2016, sob endividamento + ambiente de trabalho extremamente estressante + relação conturbada com o Thiago, você atravessou o seu momento mais crítico. Foi o limite. Você quase não voltou de lá. Voltou — e a partir daí decidiu mudar coisas: largou o emprego, fez curso de manicure no Senac, foi morar com o Thiago.
Em 2019 entrou na empresa da família dele. Pandemia. Em 2020 ficou em casa, engravidou da sua filha. No fim de 2020, o Thiago e o irmão brigaram, separaram. Você voltou pra empresa em 2021 — e está lá desde então.
Hoje você ocupa o lugar de alicerce da empresa que não é sua. Toma decisões difíceis sozinha. Acorda 6h-6h30 todo dia pra abrir a empresa enquanto o Thiago dorme. Cuida da filha de 5 anos. Carrega a casa, carrega a empresa, carrega tudo. Você me disse: "se eu parar, nada funciona — minha filha não tem escola, não tem comida na mesa". E foi com esse peso nos ombros que você chegou na nossa call.
Enquanto você me contava sua história, uma palavra ficou batendo. Você não usou ela — eu que ouvi. Mesmo quando você não falava, ela estava lá em cada episódio. Essa palavra é lugar.
Desde muito cedo, você foi ensinada a existir em função dos outros — cuidar da irmã, dos animais, ajudar seus pais pra eles descansarem. Você nunca teve permissão pra simplesmente ser uma criança que queria coisas pra si mesma.
E veja o tamanho do peso disso: você chegou aos 40 anos sem saber o que gosta — porque ninguém nunca te perguntou. Quando eu te perguntei na call "se você não precisasse cuidar de ninguém, o que você gostaria de estar fazendo?", você respondeu primeiro com clareza ("um lar só com minha filha") e depois travou. Esse travamento não é falta tua. É consequência de uma vida inteira sem espaço pra perguntar isso pra si mesma.
E veja outra peça que apareceu: quando eu perguntei se você lembrava de alguma coisa que gostava de fazer só pra você quando era criança, antes de morar com a tia, antes de cuidar de todo mundo, você me respondeu: "não lembro. Não tenho nenhuma memória."
Eu te disse na call que esse é o maior ponto de inflexão da tua vida. Não é exagero. Cada coisa que veio antes — Riacho dos Machados, mudanças, perdas, limite atravessado, casamento desgastado, empresa que não é sua — tudo isso te trouxe pra esse momento exato. O momento em que você olhou pra mim e disse: tô pronta.
Você já teve momentos difíceis antes. Já chegou no limite antes. Mas dessa vez tem uma diferença: você chegou com consciência. Não foi limite que te derrubou — foi limite que te despertou. Você sabe o que quer mudar. Sabe por quê. Sabe pra onde quer ir. Isso muda tudo.
A analogia que eu te dei na call foi a da reforma de casa. Quando tá em reforma, fica bagunçado, fica sujo, fica desconfortável. Mas quando termina, fica melhor do que era antes. Você tá no meio da reforma agora. Não tem como pular essa parte. Mas tem como atravessar com a certeza de que o que vem do outro lado vale o caminho.
Depois da nossa conversa, eu te conduzi por um exercício de relaxamento e visualização — uma hipnose guiada, mas não no sentido místico. É um processo neurológico simples que permite acessar partes de você que ficam mais escondidas no dia a dia. Você esteve consciente o tempo todo. Aqui está o registro do que vivemos.
Eu te pedi pra imaginar um lugar onde você se sentisse segura. Podia ser um lugar que você já tivesse visitado, ou um que você gostaria de visitar, ou um inventado naquele momento. Você visualizou — e entrou nele. Sentiu a sensação de segurança tomando conta. Esse lugar é seu agora. Você pode voltar pra ele sempre que precisar.
Dentro do teu lugar seguro, eu te pedi pra perceber alguém. Uma menina. Ela era você em alguma idade. Sem escolher, você deixou ela aparecer. Apareceu uma Alessandra de 17 anos, vestida com calça jeans e blusa básica, com expressão triste.
Eu te pedi pra se aproximar dela com cuidado. Pra perceber que ela te reconhece, que ela sabe quem você é, que ela estava te esperando. Pra olhar nos olhos dela. E pra dizer pra ela, devagar:
Aí eu te pedi pra perguntar pra ela do que ela precisava. E você escutou a resposta. Ela te disse: ser cuidada.
Aí veio o momento mais importante: eu te pedi pra abraçar essa menina do jeito que você sempre quis ser abraçada. Sentir o corpo dela, a leveza, o cheiro. Aquele abraço era pra você — em duas pessoas.
E enquanto você abraçava ela, eu te falei algo que quero deixar registrado em letras grandes aqui: essa menina não vai ficar nesse lugar. Ela vem com você. Ela faz parte de você. Ela sempre fez parte de você. A diferença é que a partir de agora você sabe que ela tá aí.
Depois do abraço, eu te pedi pra levar a mão direita ao centro do peito. Sentir o coração batendo. Sentir a mão sobre o coração. Aquele toque virou a sua âncora. E essa âncora vai ser uma das ferramentas mais importantes que você leva dessa call.
Sempre que você colocar a mão aí, exatamente desse jeito, você vai voltar pra menina, pro abraço, pra sensação de que você importa. É um atalho neurológico — você ancorou aquela emoção no gesto físico. Cada vez que repete o gesto, o sentimento vem junto. Essa é a base de como funciona uma âncora emocional.
Depois de olhar pra dentro e pra trás, eu te conduzi numa projeção 5 anos no futuro. A nova Alessandra. A empoderada. A confiante. Você imaginou cores. Imaginou o dia da realização de um sonho seu. Vivenciou em primeira pessoa — vendo, ouvindo, sentindo. Já era real ali.
Você imaginou você mesma no futuro, em frente ao espelho, com a postura nova, a roupa que escolheu, o sorriso no rosto. Imaginou a pessoa que você mais ama do teu lado, comemorando, com brilho no olhar, dizendo "eu sabia que você ia conseguir". Sentiu o empoderamento tomar conta. Usou a âncora — mão no peito — pra fortalecer ainda mais aquele momento.
Quando você abriu os olhos, eu te pedi pra me dizer numa palavra ou frase curta o sentimento que dominava sua mente. Você respondeu, três vezes: "Eu consigo. Eu consigo. Eu consigo." E depois: "Eu tenho certeza disso."
Agora começa o trabalho mais importante: decidir quem você quer ser e ir lá buscar essa versão. Não é descoberta — é decisão consciente. Um tijolo de cada vez, como você constrói um castelo. Não vai ser instantâneo, mas é inevitável quando você se mantém na direção.
A gente fez um trabalho profundo. Eu te disse no fim da call: "eu peguei a tua cabeça e sacudi assim, a areia tá bagunçada — ela vai assentar". Essa seção é sobre cuidar de você enquanto a areia assenta. Não é checklist de tarefa. É lembrete de gentileza.
Esses são os fios condutores da nossa conversa. Não são instruções — são pontos de referência. Quando bater dúvida, cansaço, vontade de voltar pro padrão antigo, volta aqui e relê. Cada um foi colocado com intenção.
Alessandra, foi uma das conversas mais bonitas que eu tive em muito tempo. Você chegou carregando muita coisa, recebeu um espelho diferente, devolveu coragem. A Alessandra que estava coberta a vida inteira começou a aparecer agora. Tá tudo registrado aqui pra você revisitar quando precisar. Não tá sozinha. A gente continua junto na próxima.